Sobre Estados Democráticos, a Questão do Embrião e o Princípio da Secularização a partir de Luigi Ferrajoli (ou o Estudo das Ciências Criminais entre o Direito e a Moral)

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O ensejo deste post é oriundo do recém lido trabalho “La Cuestión del Embrión entre Derecho y Moral“, de Luigi Ferrajoli, publicado na Revista Jueces para la Democracia. Información y debate, Madrid, n. 44, julho, 2002 (uma versão italiana do tema pode ser encontrada aqui).

“Não tenho dúvida que a abordagem do tema ocorrerá sob uma perspectiva garantista”, me ocorreu antes de iniciar a leitura. E de fato assim o é (até porque seria antagônico e esquizofrênico se o autor escrevesse o contrário). Assim, Ferrajoli (2002, p. 3) inicia o trabalho, aludindo os dois possíveis caminhos com respostas diferenciadas para o problema, a depender do estatuto metateórico do tratamento a ser dado por nós. Deste modo, esclarece:

La primera posición es la de la confusión, o sea, de la recíproca implicación entre cuestiones jurídicas y correspondientes cuestiones morales; dicho en pocas palabras, entre derecho y moral. La (presunta) inmoralidad del aborto o de otras prácticas lesivas para el embrión, según este punto de vista, no es sólo el presupuesto necesario, sino también la razón suficiente de su prohibición y punición. Es la posición expresada de manera emblemática por la religión católica: si un comportamiento es inmoral debe ser también prohibido por el brazo secular del derecho; si es un pecado debe ser también tratado como delito. Por tanto, si la supresión de un embrión, como consecuencia de intervenciones abortivas o de experimentaciones médicas, es (considerada) inmoral, entonces debe ser configurada además como un ilícito por parte del derecho”. (perspectiva aproximativa entre direito e moral)

“La segunda posición es la opuesta de la separación entre cuestiones jurídicas y cuestiones morales, es decir, entre derecho y moral. En ella, la reprobación moral de un determinado comportamiento, co-mo por ejemplo la destrucción de un embrión, no es por sí sola una razón suficiente para justificar la prohibición jurídica. Se trata, como es sabido, de la tesis ilustrada sostenida por Hobbes, Locke y después por todo el pensamiento laico y liberal, de Bentham y Beccaria a Mill, hasta Bobbio y Hart. Sobre esta tesis de la recíproca autonomía se basan tanto el derecho como la ética moderna: de un lado la secularización del derecho y del estado, del otro el fundamento de la ética laica sobre la autonomía de la conciencia antes que sobre la heteronomía del derecho. Según esta tesis, el derecho no es —no debe ser, pues no lo consiente la razón jurídica ni lo permite la razón moral— un instrumento de reforzamiento de la moral. Su fin no es ofrecer un brazo armado a la moral, o mejor, debido a las diversas concepciones morales presentes en la sociedad, a una determinada moral. Tiene el cometido, diverso y más limitado, de asegurar la paz y la convivencia civil, impidiendo o reduciendo los daños que las personas puedan ocasionarse unas a otras: ne cives ad arma veniant. Según una imagen sugerida por Hobbes, derecho y moral pueden representarse como dos círculos que tienen el mismo centro pero diversa circunferencia, más amplia el de la moral, más restringida la del derecho. Si es verdad que todos los delitos pueden ser considerados pecados, no lo es lo contrario”. (perspectiva separatista entre direito e moral)

Ferrajoli classifica a separação axiológica da segunda posição como um postulado do Estado liberal, em vista de que el derecho y el estado no encarnan valores morales ni tienen el cometido de afirmar, sostener o reforzar la (o una determinada) moral o cultura, sino sólo el de tutelar a los ciudadanos. Por eso, el estado no debe inmiscuirse en la vida moral de las personas, defendiendo o prohibiendo estilos morales de vida, creencias ideológicas o religiosas, opciones o actitudes culturales. Su único deber es garantizar la igualdad, la seguridad y los mínimos vitales” (FERRAJOLI, 2002, p. 3). Trata-se do princípio da secularização, isto é, para além da aproximação direito-moral, o Estado, concebido em sua ordem democrática, deve primar pelo pluralismo moral e pela tolerância e liberdade de opinião e crença dos cidadãos, de modo que todos estão submetidos a uma ordem jurídica, no entanto, não submetidos a conceber uma moralidade mesma, assim se funda a laicidade do Estado e do Direito moderno.

Tomando parte pelo segundo pensamento (¡por supuesto!), o filósofo justifica os limites da liberdade individual através do princípio utilitarista da lesividade, segundo o qual cada indivíduo pode pensar da forma que quiser desde que não interfira e cause danos a terceiros. Neste ponto surge a questão da tutela (ou não) do embrião, na qualidade de pessoa (ou não). Assim, Ferrajoli (2002, p. 4) se manifesta no sentido de que, privilegiadamente como o fazem os católicos, a atribuição da qualidade de “pessoa” ao embrião nada mais é que uma valoração, não um fato, assim: “en efecto, una deducción similar supone, subrepticiamente, la tesis moral de la calidad de ‘persona’ del feto: que no es una aserción, sino una prescripción; no un juicio de hecho sino un juicio de valor, como tal ni verdadero ni falso sino confiado a la valoración moral y a la libertad de conciencia de cada uno”.

Assim, conclui: “Pero, entonces, siempre que se comparta el principio laico y liberal de la separación entre derecho y moral, la cuestión de si el feto (como el embrión) es  o no persona no es una cuestión científica o de hecho, al ser indecidible en el plano empírico; sino una cuestión moral que admite soluciones diversas y opinables, y no puede ser resuelta por el derecho privilegiando una determinada tesis moral, la que considera al feto una persona, imponiéndola a todos y por tanto obligando también a las mujeres que no la compartan a sufrir sus dramáticas consecuencias” (FERRAJOLI, 2002, p. 4). Ferrajoli frisa que, sob uma perspectiva de tolerância moral e filosófica, o que o Estado pode fazer é traçar um parâmetro temporal da tomada da decisão por parte da mulher, assim faz referência ao caso do Estado italiano (Lei n. 194/1978) o qual autoriza que apenas a partir de 3 meses que a mulher poderá tomar uma decisão sobre o eventual abortamento, não por se tratar de referência temporal que aluda a alguma formação biológica, senão por se tratar do tempo necessário para a mulher fazer uso de uma autodeterminação consciente, sem embaraços. 

1 a 1 a a ab uteros nao sao caixoes

Em outro trabalho, Ferrajoli (2009, p. 34) deixou muito bem claro seu posicionamento ao frisar: “Mi tesis moral afirma únicamente: a) que el embrión es merecedor de tutela no en cuanto tal, sino sólo en cuanto está destinado a nacer, es decir a convertirse en ‘persona’; b) que este destino, que compromete a la persona de la madre, que no puede, conforme a la bien conocida máxima kantiana, ser utilizada como un medio para fines ajenos a ella, no puede ser decidido más que por la madre, desde su autonomía y responsabilidad moral; c) que por tanto la autodeterminación de la mujer trae al mundo no sólo un cuerpo sino también una ‘persona’ y es, en este sentido, determinante para el nacimiento tanto del primero como de la segunda […] una tesis ético-político que incluso los católicos deberían compartir si aceptaran laicamente que su moral no precisa el apoyo del brazo armado del derecho penal“.

O posicionamento se assemelha ao caso brasileiro com destaque para a ADI n. 3510/STF, no qual se considerou que o embrião congelado que não será inserido no útero não pode ser considerado, sequer, ser humano potencial (nascituro), logo, ocorrendo sua utilização para fins de pesquisa com células-tronco, não há, propriamente, violação ao direito à vida, senão, reificação e dignificação da vida (alheia). Bastante precisas foram as arguições do professor Luís Roberto Barroso que, na oportunidade, concatenou argumentos/objeções contra a ADI em três ordens distintas: ética, jurídica e do interesse nacional (vide acá).

Confirmando a hipótese, Renato Marcão (2010) foi bastante lúcido quanto a esse ponto ao reclamar: “Há que se buscar um sistema de regulamentação criminal menos hipócrita possível, onde não exista espaço para a proteção de valores puramente morais, sem que isso traduza qualquer aplauso ou condescendência em relação a condutas marcadas por revelado desprezo à moral vigorante”.

Mas qual a importância que o raciocínio feito em cima da situação de experiências com embriões (ex. pesquisas com células-tronco, etc.) e a compreensão de seu status de “não-pessoa” refletem de relevante no estudo das ciências criminais? Muita coisa.

O Direito Penal moderno, ao afirmar o princípio da secularização, deixa de punir condutas que, a despeito de imorais, não causam danos a terceiros (pessoas ou seus bens jurídicos), de modo que a intervenção penal abstêm-se do punitur quia peccatum est, passando a cumprir com um quia prohibitum, isto é, o crime pode até ser pecado, mas não é todo pecado que é crime. Condutas estritamente imorais não podem, segundo a teoria analítica tripartite, ser concebidas como delito, propriamente dito. 

Assim, conforme o aforismo 108 de “Além do Bem e do Mal”, de Nietzsche (2011, p. 84), segundo o qual “Não existem fenômenos morais, mas interpretações morais dos fenômenos”, analogamente, raciocina-se que não existem fatos humanos criminosos, senão interpretações criminalizantes dos fatos humanos. Para nós, fatos humanos que vão muito além da moral particular de cada um. Fatos propriamente contundentes a incolumidade de bens jurídicos alheios, e tão somente, pelo menos segundo um Estado Constitucional e Democrático cuja máquina penal apenas atue de forma minimalista (ou por um Direito Penal não-moralista).

Referências Bibliográficas

FERRAJOLI, Luigi. Garantismo: una discusión sobre derecho y democracia. 2ª ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009.

FERRAJOLI, Luigi. “La Cuestión del Embrión entre Derecho y Moral”. Revista Jueces para la Democracia. Información y debate, Madrid, n. 44, julio, 2002.

MARCÃO, Renato. “Código penal não pode invadir a esfera da moralidade”. São Paulo, Boletim Consultor Jurídico, 2010, Disponível em: http://www.conjur.com.br/2010-out-14/codigo-penal-nao-invadir-esferas-moralidade-ou-bem-estar-social, acessado em 15, abril, 2013.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal: prelúdio de uma Filosofia do Futuro. trad. Antônio Carlos Braga. São Paulo: Escala, 2011 (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal – 31).

Recomendo: leitura das arguições orais do professor Luís Roberto Barroso na ADPF n. 54/STF degravada por mim (LRB deixa bastante claro a necessidade de um princípio da laicização do Estado em questões mormente bioéticas).

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